sábado, 11 de dezembro de 2010

Trabalho – Ferroviários e a greve na SPR em 1932 (2)

Na história do movimento sindical brasileiro, o nome de Orestes Giorgi está ligado às primeiras lutas trabalhistas organizadas no setor ferroviário. Primeiro presidente do Sindicato dos Ferroviários da São Paulo Railway (1932 a 1936) Giorgi, que trabalha nas oficinas da Lapa da SPR,  deixou registrado no jornal O Trilho (novembro de 1958) importante testemunho recuperado pelo Sindicato dos Trabalhadores em Empresas Ferroviárias do Estado de São Paulo.

“1932 foi o ano de fundação do Sindicato dos “Ferroviários da São Paulo Railway”. Nesse mesmo ano despontam os primeiros  movimentos grevistas da categoria, em fevereiro e maio.
Por pressão dos associados, é realizada uma Assembléia Geral Extraordinária no dia 1º de maio de 1932 que contou com a presença de centenas de Ferroviários. Durante as discussões em torno da pauta, reivindicações se arrastaram pela madrugada do dia 02 de maio. Dessa reunião resultou a seguinte pauta de reivindicação, apresentada à superintendência da Estrada de Ferro:

  • Readmissão de todos os Ferroviários demitidos no movimento de fevereiro de 1932
  • Abolição completa das empreiteiras
  • Aumento  nos ordenados, diários ou por hora, nas seguintes bases: porcentagem variável de 30% a 10%
  • Semana de 48 horas semanais de trabalho
  • Despedida de alguns chefes e que os demais chefes encarregados e feitores tenham tratamento cortês com todos os trabalhadores
  • Cumprimento da lei de férias
  • Salário igual para todos os trabalhadores
  • Nenhuma perseguição e liberdade para todos os que participaram do movimento
  • Reconhecimento do “Sindicato dos Ferroviários da São Paulo Railway"
  • Pagamento dos salários e vencimentos a todos os trabalhadores, enquanto perdurar o movimento
  • Recondução do companheiro Maximino Trindade, delegado do Sindicato no Pary
  • Adoção de medidas de higiene e conforto nos locais de trabalho

O impasse durou 12 dias. O próprio Presidente Getulio Vargas e o Ministro do Trabalho, Salgado Filho, determinaram a arbitragem do litígio. A convenção foi assinada pelo superintendente da estrada M. Wellington, transigindo a maioria das reivindicações, embora a lei reguladora das matérias não obrigasse a Estrada a acatá-las e, para outras matérias, não havia lei própria.

As conquistas das reivindicações foram um marco para o Sindicato. A vitória do
movimento veio consolidar seu papel junto à categoria. A partir daí seu crescimento se expande por todo o Estado, abrangendo todas as ferrovias e aumentando o numero de sócios.



Acontece que, terminada a greve referida, a administração da então São Paulo Railway, mandava funcionários da sua administração, munidos de uma relação de empregados, por ela visados, vedando o ingresso nas oficinas de 87 ferroviários. Em seguida, a administração da estrada requer ao Ministro do Trabalho, permissão para demiti-los e, como sempre, alegando que eles eram comunistas. Entre os ferroviários visados pela medida da “Estrada”, havia alguns com mais de 10 anos de serviço efetivo.   No mês de junho era procurado em meu local de trabalho, nas Oficinas Centrais da ferrovia, por um colega de serviço, dizendo-me que, estando de férias, aproveitaria para, por conta própria, avistar-se com o Senhor Ministro do Trabalho, por isso que me procurava para fazer parte de uma comissão no sentido de promover a defesa d os companheiros atingidos injustamente.

Aceitei o convite que me estava sendo feito, por considerá-lo além de justo, sobretudo humano. Constitui-se a comissão integrada pelos ferroviários José Toquarto Pinto, Orestes Giogi e Valetim Bardus, estes representando os ferroviários atingidos pela prepotência da São Paulo Railway.

Em 5 de julho, do mesmo ano, a referida comissão promovia a vinda a esta Capital do Ministro do Trabalho  no sentido de ser iniciada a defesa dos companheiros, visto como, na ocasião, não tínhamos qualquer organismo a que pudéssemos recorrer. Tínhamos um departamento intitulado de Trabalho, mas que só servia para arranjar empregado para os patrões. Quanto à defesa, ficava essa, a cargo da policia resolver.
Precisamente no dia 5 de julho, embora contra a vontade do então chefe da policia, Sr. Tyso Martins, realizava-se a reunião com a presença do Ministro do Trabalho, debaixo do maior aparato bélico, dando as sim uma demonstração de que o Estado de São Paulo estaria em pé de guerra, querendo com isso, fazer crer ao povo paulist a, que os ferroviários da São Paulo Railway eram feras. 

Desse modo, favoreciam o pedido da Estrada. Na reunião acima referida, o Ministro do Trabalho, Dr. Salgado Filho solicitava da comissão que preparasse todos os documentos indispensáveis à defesa dos ferroviários para apresentá-los ao Ministério do Trabalho. Tal iniciativa ficou paralisada devido ao movimento revolucionário paulista.

No mês de setembro do mesmo ano, dirigia-se a Comissão à Capital do país, à sua própria custa, pois não existia, na ocasião, qualquer organismo que pudesse custear as despesas.
Feita a entrega dos documentos solicitados pelo Ministro, este, após examinar a documentação que lhe estava sendo entregue, declarava que iria fazer todo o possível no sentido de defender os ferroviários atingidos. Dirigindo-se a um dos membros da comissão, Sr . José Torquato Pinto, fez-lhe a entrega de uma carta nomeando-o, desde essa data, representante do Ministério do Trabalho, em São Paulo.
Dirigindo-se a mim, Orestes Giorgi, solicita-me promover a fundação do Sindicato, no sentido de obrigar a São Paulo Railway ao cumprimento da lei, alegando que tivera conhecimento da existência de vários sindicatos, porém, sem o respectivo registro, dificultando assim qualquer defesa dos trabalhadores ferroviários.

Atendendo ao pedido do Ministro, não tive dúvidas em aceitar tal incumbência, certo de que estaria amparado pelas autoridades constituídas.

Assim, após consultar os companheiros de Santos, da Lapa, e os dirigentes do ex-sindicato de São Paulo, promovia, por intermédio de boletins, a convocação dos ferroviários para uma Assembléia Geral, na rua José Paulino, para o dia 30 de outubro de 1932 com o objetivo de aprovação dos estatutos e a nomeação de sua
Diretoria provisória, a qual ficou assim constituída:

Presidente: Orestes Giorgi – Oficina Lapa
Secretario: Valentim Bardus- Ferreiro – oficina Central
Tesoureiro: Arthur Pandovani – Oficina Lapa.

(Fonte:O Trilho – novembro de 1958 – Orestes Giorgi, primeiro presidente do Sindicato dos ferroviários da SPR, de 1932 a 1936). 

2 comentários:

  1. Tenho orgulho de ser neta deste senhor!!!!
    Orestes Giorgi. Meu avô materno.

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  2. Sou filho do secretario Valentim Bardus e tenho muito orgulho de meu Pai.

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