Um blog para difundir o passado e o presente do bairro da Lapa, na zona Oeste de São Paulo: Sua origem, sua história, seus lugares, e sobretudo, sua gente. Uma gente que se orgulha do lugar onde vive.
Gente brasileira, paulistana, estrangeira. Gente democraticamente bairrista, que se orgulha do seu jeito lapeano de ser.
quarta-feira, 9 de março de 2011
Memórias - Vila Leopoldina de outrora
no relato de Boneli (2)
Histórias da Lapa volta a abrir espaço para o relato de José Benedito Bonelli, presidente do Conselho das Associações Amigos de Bairro da Região da Lapa (Consabs), sobre a Leopoldina de outrora. Boneli fala das brincadeiras da garotada no bairro nos anos 50.
segunda-feira, 7 de março de 2011
Comunidade: Lapa e poesia
É tempo de Carnaval, neste ano de 2011. Carnaval que chegou só em março. Tempo de Carnaval é tempo de folia, mas para quem quer ficar longe da batucada vai aqui um momento de pura poesia reflexiva. No site São Paulo, Minha Cidade, da SPTuris (empresa da Prefeitura reponsável pelos eventos na cidade) encontramos o seguinte texto de J.Grassi, datado de 2010.
"A primeira friagem deste outono desceu sonora com sono, das torres de tijolos vermelhos espetadas num céu cor de vidro na igreja de Nossa Senhora da Lapa. E os sinos ondularam nas notas monótonas, soaram lentos e tontos, ficou no ar um instante rondando, sobre os telhados pretos, antigos, da Rua Doze de Outubro no bairro operário da Lapa.
Que estranho! Agora, parece que aquelas mesmas notas lânguidas, que ali tinham descido, começaram a subir. Desdobradas, desfolhadas, esfareladas sobre as travessas das ruas do bairro. É uma ressonância magnética, misteriosa, envolvente, cativante, embaladora sempre em ascensão.
Os sinos das torres da igreja matriz anunciaram: Seis horas da tarde. É a hora da Ave Maria. E aquelas mesmas notas sonoras, lânguidas, desfolhadas, esfareladas, descendo lentamente, ondularam, miaram, ronronaram como gatos, sobre os telhados rasteiros da Rua Nossa Senhora da Lapa e se aglomeram como um canto de onda no côncavo acústico de uma concha.
Lá no entorno das ruas tudo gira como se fosse um gramofone tocando uma sinfonia. Parece que todos os ruídos confusos da cidade se acumularam e convergiram ali, no entorno das ruas transversais no bairro comercial e dos bares baratos da Lapa. É o bairro dos operários.
Na comprida rua há uma chusma de barracas de lona dispostas no meio fio das calçadas todas repletas de gente, sobre o ruído fervilhante de uma ladainha de vozes misturadas, embaralhadas, confusas, entrecortadas, semelhantes a um longo suspiro de uma interjeição de alegria. Como se fosse uma opereta, misturada ao som do pesado e intenso tráfego dos ônibus, automóveis e caminhões pelas ruas. Babel!
Ali perto, existe um bar. Entra um homem com um pastor alemão grande, digno do porte, de pêlo curto e escuro, que passeia entre as mesas e fica no melhor lugar, em posição sentada, com seus olhos escuros vigiando. Tudo inútil. Dentro do bar um bom bêbado gordo com o seu bom chope, também gordo.
O proprietário deste bar costumava fechá-lo de vez em quando, para pregar uma boa peça de gozação aos fregueses. Coloca uma placa retangular pintada de azul dependurada na porta de aço com os dizeres: hoje está fechado para o almoço. Sigo descendo a Rua Nossa Senhora da Lapa, à esquerda, até a Rua Clemente Álvares, junto ao fórum regional da Lapa.
Mais abaixo, próximo ao Quartel do Corpo de Bombeiros na próxima travessa, há uma esquina entre a fachada do prédio de um banco, e algumas lojas comerciais, onde estão montadas as primeiras de muitas outras barracas de lona junto ao meio fio da calçada, na ponta do passeio de pedestres, o camelódromo. Ali, ele desponta com gente em pencas em torno de uma sinfonia de vozes, apregoando as mercadorias contrabandeadas.
Lá é o reino da bugiganga, das cangas, miçangas, das quinquilharias boas e baratas, dos relógios falsificados, imitação grosseira, porém, quase perfeita, de modelos mundialmente conhecidos: Rolex, Ômega, Tissot, e tantas outras marcas Made in China. De dentro de uma barraca de lona, sai um homem grande, moreno, em mangas de camisa, colete desabotoado e um boné na cabeça com a estampa do Corinthians, desenhado no frontal. Ao lado dele, há um velho com um tabuleiro de balas, paçocas e amendoins jogados ao loto.
Duas mulheres de cócoras vendem no meio fio da calçada, pêras verdes e tremoços. Saio dali, e vou caminhando pela Rua Cincinato Pomponet até uma praça onde antigamente existia uma loja de referência e variedades, “Ao Barulho da Lapa”. Mais a frente, num largo arejado, todo cinzento, de calçamento novo, próximo ao Mercado Municipal, em frente aos portões do terminal de ônibus da Lapa, há gente que passa ou pára curioso.
Um homem com uma pianola eletrônica, outro com uma zabumba e outro mais com um triângulo de ferro, usando um gramofone áspero, rouco, rasgado, sempre rangendo, riscando o ar ralo e poluído ao som de uma música cadenciada. Há ali também, uma mulher baixa, saia rodada, um bornal ladeado na cintura fina, lenço no pescoço com adereços de cangaceiro, imita quase que perfeita a mulher rendeira da Maria Bonita de Lampião.
Ela traz no ombro uma cópia quase perfeita de um fuzil como antigamente eram usados nas caatingas no interior de Pernambuco e do Ceará. É apenas uma boa gente que vem ali, para divertir o povo e divulgar o lançamento de seu CD. Ela acompanha o ritmo cadenciado da música hipnótica, batendo o pé firme no chão, dançando no compasso do xaxado de espaço a espaço o Forró e Baião.
À direita, uma travessa. Rua Catão, na esquina dobrada há um Shopping Center. No topo do prédio há um círculo ovóide sobreposto a outro menor, nas cores laranja e branco, sob o marca passo do relógio que espia do alto da torre o burgo de casinhas espremidas, miúdas, todas iguais no entorno do Shopping Center da Lapa. Olhei um pouco para as torres agora distantes da Igreja de Nossa Senhora da Lapa, pensei nas ermidas brancas pelas noites de invernada quando as almas rondam em procissão pelos telhados velhos, pretos e tristíssimos daquelas ruas antigas do bairro da Lapa.
É aqui bem próximo, num terreno de estacionamento, que começa o quadrilátero do quarteirão do Shopping Center e logo ali, mais adiante, na Rua Guaicurus ele termina. Entro pela porta lateral e me misturo com a multidão de homens e mulheres que deslizam pelas calçadas. Na porta das lojas comerciais há moças ansiosas, esperançosas, enroscadas, enoveladas em pensamentos esperando pacientemente, algum freguês para vender algum objeto, alguma roupa de esporte ou suporte, ou alguma bugiganga qualquer.
Enrosco-me, enovelo-me, nesses corredores pardos e vou seguindo a turba. Vou neles, vou com eles, sobre a claridade suave do neon até a porta de uma loteria. Jogo farto, apostas em alta, o prêmio da Mega Sena está mais uma vez acumulado, diz a placa do Baners disposto na porta de entrada da casa lotérica. Quem sabe a sorte não está lá? Vou seguindo pela praça de piso novo marrom esmaltado, reluzente ao reflexo da luz derramada do alto do teto.
No ar rarefeito, sinto o perfume que exala da loja dos aromas, logo ali, mais adiante. Olho curioso à porta de entrada principal onde há uma moderna casa de lanches, servindo sanduíche recheado de carne, alface, cebola e gergelim, quase sempre regado a Coca Cola. É a presença dos Yankee ali. E bandos de jovens e crianças que vem de todos os lados, e ficam no meio da loja, em algazarra, sorvendo o sorvete derretido nas casquinhas em forma de cone. Vou agora caminhando sob as placas de publicidade das lojas até o fim do corredor. Volto.
Ando tudo de novo. No meio da praça está um pequeno quiosque de informações. Vejo-te. É bela recepcionista, sorriso delicado nos lábios, olhar discreto e atencioso está atento à telinha do computador. Dou-lhe algumas balas, mando-lhe um beijo e me despeço. Teu nome? Não sei! Mariana, Marina, Cláudia, Juliana ou Danielle?
Quem sabe! Agora é hora de voltar. Saio novamente pela lateral do Shopping. Olho para o céu e vejo sob rolos de algodão uma lua quebrada, entre grossas nuvens de alegorias, suspensas e arqueadas sobre o bairro nostálgico e poético da Lapa". (http://www.saopaulominhacidade.com.br/list.asp?ID=3885)
Que estranho! Agora, parece que aquelas mesmas notas lânguidas, que ali tinham descido, começaram a subir. Desdobradas, desfolhadas, esfareladas sobre as travessas das ruas do bairro. É uma ressonância magnética, misteriosa, envolvente, cativante, embaladora sempre em ascensão.
Os sinos das torres da igreja matriz anunciaram: Seis horas da tarde. É a hora da Ave Maria. E aquelas mesmas notas sonoras, lânguidas, desfolhadas, esfareladas, descendo lentamente, ondularam, miaram, ronronaram como gatos, sobre os telhados rasteiros da Rua Nossa Senhora da Lapa e se aglomeram como um canto de onda no côncavo acústico de uma concha.
Lá no entorno das ruas tudo gira como se fosse um gramofone tocando uma sinfonia. Parece que todos os ruídos confusos da cidade se acumularam e convergiram ali, no entorno das ruas transversais no bairro comercial e dos bares baratos da Lapa. É o bairro dos operários.
Na comprida rua há uma chusma de barracas de lona dispostas no meio fio das calçadas todas repletas de gente, sobre o ruído fervilhante de uma ladainha de vozes misturadas, embaralhadas, confusas, entrecortadas, semelhantes a um longo suspiro de uma interjeição de alegria. Como se fosse uma opereta, misturada ao som do pesado e intenso tráfego dos ônibus, automóveis e caminhões pelas ruas. Babel!
Ali perto, existe um bar. Entra um homem com um pastor alemão grande, digno do porte, de pêlo curto e escuro, que passeia entre as mesas e fica no melhor lugar, em posição sentada, com seus olhos escuros vigiando. Tudo inútil. Dentro do bar um bom bêbado gordo com o seu bom chope, também gordo.
O proprietário deste bar costumava fechá-lo de vez em quando, para pregar uma boa peça de gozação aos fregueses. Coloca uma placa retangular pintada de azul dependurada na porta de aço com os dizeres: hoje está fechado para o almoço. Sigo descendo a Rua Nossa Senhora da Lapa, à esquerda, até a Rua Clemente Álvares, junto ao fórum regional da Lapa.
Mais abaixo, próximo ao Quartel do Corpo de Bombeiros na próxima travessa, há uma esquina entre a fachada do prédio de um banco, e algumas lojas comerciais, onde estão montadas as primeiras de muitas outras barracas de lona junto ao meio fio da calçada, na ponta do passeio de pedestres, o camelódromo. Ali, ele desponta com gente em pencas em torno de uma sinfonia de vozes, apregoando as mercadorias contrabandeadas.
Lá é o reino da bugiganga, das cangas, miçangas, das quinquilharias boas e baratas, dos relógios falsificados, imitação grosseira, porém, quase perfeita, de modelos mundialmente conhecidos: Rolex, Ômega, Tissot, e tantas outras marcas Made in China. De dentro de uma barraca de lona, sai um homem grande, moreno, em mangas de camisa, colete desabotoado e um boné na cabeça com a estampa do Corinthians, desenhado no frontal. Ao lado dele, há um velho com um tabuleiro de balas, paçocas e amendoins jogados ao loto.
Duas mulheres de cócoras vendem no meio fio da calçada, pêras verdes e tremoços. Saio dali, e vou caminhando pela Rua Cincinato Pomponet até uma praça onde antigamente existia uma loja de referência e variedades, “Ao Barulho da Lapa”. Mais a frente, num largo arejado, todo cinzento, de calçamento novo, próximo ao Mercado Municipal, em frente aos portões do terminal de ônibus da Lapa, há gente que passa ou pára curioso.
Um homem com uma pianola eletrônica, outro com uma zabumba e outro mais com um triângulo de ferro, usando um gramofone áspero, rouco, rasgado, sempre rangendo, riscando o ar ralo e poluído ao som de uma música cadenciada. Há ali também, uma mulher baixa, saia rodada, um bornal ladeado na cintura fina, lenço no pescoço com adereços de cangaceiro, imita quase que perfeita a mulher rendeira da Maria Bonita de Lampião.
Ela traz no ombro uma cópia quase perfeita de um fuzil como antigamente eram usados nas caatingas no interior de Pernambuco e do Ceará. É apenas uma boa gente que vem ali, para divertir o povo e divulgar o lançamento de seu CD. Ela acompanha o ritmo cadenciado da música hipnótica, batendo o pé firme no chão, dançando no compasso do xaxado de espaço a espaço o Forró e Baião.
À direita, uma travessa. Rua Catão, na esquina dobrada há um Shopping Center. No topo do prédio há um círculo ovóide sobreposto a outro menor, nas cores laranja e branco, sob o marca passo do relógio que espia do alto da torre o burgo de casinhas espremidas, miúdas, todas iguais no entorno do Shopping Center da Lapa. Olhei um pouco para as torres agora distantes da Igreja de Nossa Senhora da Lapa, pensei nas ermidas brancas pelas noites de invernada quando as almas rondam em procissão pelos telhados velhos, pretos e tristíssimos daquelas ruas antigas do bairro da Lapa.
É aqui bem próximo, num terreno de estacionamento, que começa o quadrilátero do quarteirão do Shopping Center e logo ali, mais adiante, na Rua Guaicurus ele termina. Entro pela porta lateral e me misturo com a multidão de homens e mulheres que deslizam pelas calçadas. Na porta das lojas comerciais há moças ansiosas, esperançosas, enroscadas, enoveladas em pensamentos esperando pacientemente, algum freguês para vender algum objeto, alguma roupa de esporte ou suporte, ou alguma bugiganga qualquer.
Enrosco-me, enovelo-me, nesses corredores pardos e vou seguindo a turba. Vou neles, vou com eles, sobre a claridade suave do neon até a porta de uma loteria. Jogo farto, apostas em alta, o prêmio da Mega Sena está mais uma vez acumulado, diz a placa do Baners disposto na porta de entrada da casa lotérica. Quem sabe a sorte não está lá? Vou seguindo pela praça de piso novo marrom esmaltado, reluzente ao reflexo da luz derramada do alto do teto.
No ar rarefeito, sinto o perfume que exala da loja dos aromas, logo ali, mais adiante. Olho curioso à porta de entrada principal onde há uma moderna casa de lanches, servindo sanduíche recheado de carne, alface, cebola e gergelim, quase sempre regado a Coca Cola. É a presença dos Yankee ali. E bandos de jovens e crianças que vem de todos os lados, e ficam no meio da loja, em algazarra, sorvendo o sorvete derretido nas casquinhas em forma de cone. Vou agora caminhando sob as placas de publicidade das lojas até o fim do corredor. Volto.
Ando tudo de novo. No meio da praça está um pequeno quiosque de informações. Vejo-te. É bela recepcionista, sorriso delicado nos lábios, olhar discreto e atencioso está atento à telinha do computador. Dou-lhe algumas balas, mando-lhe um beijo e me despeço. Teu nome? Não sei! Mariana, Marina, Cláudia, Juliana ou Danielle?
Quem sabe! Agora é hora de voltar. Saio novamente pela lateral do Shopping. Olho para o céu e vejo sob rolos de algodão uma lua quebrada, entre grossas nuvens de alegorias, suspensas e arqueadas sobre o bairro nostálgico e poético da Lapa". (http://www.saopaulominhacidade.com.br/list.asp?ID=3885)
domingo, 6 de março de 2011
Comunidade: Lapa e o Carnaval de rua
Quem nunca teve a oportunidade de curtir o Carnaval de rua ou aqueles que sonham em reviver um passado lapeano precisam conhecer a turma do do bloco “A Lapa Somos Nóis”
Desde sua fundação em 2001, o “A Lapa Somos Nóis” desfila nas ruas do bairro, no período pré-carnavalesco, cantando sambas-enredo que fizeram sucesso no Carnaval paulistano. A primeira folia foi ao som de “Nóis Falando da Lapa”, (Império Lapeano). Na seqüência vieram “Água Cristalina” (Unidos do Peruche); “Vissundo. Contos de Riqueza” (Mocidade Alegre); “São Paulo. Seu Povo.
Sua Gente” (Rosas de Ouro); “Na Arca de Noel Rosa” (Vai-Vai) e “Narciso Negro” (Nenê de Vila Matilde)
"Sempre convidamos as famílias e escolas da Lapa e região a brincarem conosco”, afirma um dos fundadores do bloco, José Benedito Morelli Boneli. O outro lapeano funddaor do A Lapa Somos Nóis foi o falecido Décio Ferreira. “ A criação do bloco foi uma iniciativa para relembrar o tempo de nossos pais e avós”, explica um Décio Ferreira, um dos fundadores do bloco. “Nas primeiras décadas do século passado, o bairro da Lapa tinha um alegre Carnaval de rua, em áreas como o Largo da Lapa e a rua Doze de Outubro.
"Sempre convidamos as famílias e escolas da Lapa e região a brincarem conosco”, afirma um dos fundadores do bloco, José Benedito Morelli Boneli. O outro lapeano funddaor do A Lapa Somos Nóis foi o falecido Décio Ferreira. “ A criação do bloco foi uma iniciativa para relembrar o tempo de nossos pais e avós”, explica um Décio Ferreira, um dos fundadores do bloco. “Nas primeiras décadas do século passado, o bairro da Lapa tinha um alegre Carnaval de rua, em áreas como o Largo da Lapa e a rua Doze de Outubro.
quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011
Memórias - Vila Leopoldina de outrora
no relato de Boneli (1)
Na vida comunitária da Região da Lapa, o nome de José Benedito Morelli, o Boneli, está ligado às raízes do bairro da Vila Leopoldina e ao desenvolvimento do associativismo regional.
Quando se fala de bairros paulistanos e seus personagens, Boneli é surge como símbolo da lapeanidade, assim como Armandinho foi o símbolo da italianidade do bairro do Bexiga
Histórias da Lapa abre espaço para o o relato de Bonelli sobre a Leopoldina de outrora. São histórias e causos que recuperam o bairro em várias dimensões: a vida em família, a paisagem cotidiana, as brincadeiras de infância, a vida em comnidade...Confira o vídeo, gravado em fevereiro de 2011, casa de Boneli, na Rua Teerã, na Vila Leopoldina.
domingo, 20 de fevereiro de 2011
Comunidade: A Lapa e seus maçons
No imaginário coletivo, a Maçonaria ainda figura como uma entidade cercada de grandes mistérios e de pomposos rituais litúrgicos. Não são poucos os adeptos de teorias conspiratórias, que classificam as atividades maçônicas no mundo todo como a mão invisível a dirigir os destinos da humanidade, impondo-se como o ventríloquo de vários personagens históricos ao longo dos séculos.
Na Lapa, os maçons pertencentes a essa ordem procuram, no diálogo com a comunidade, mostrar justamente o contrário. Segundo eles, a Maçonaria defende o aperfeiçoamento do homem e da sociedade não só em termos de melhorias econômicas e sociais, mas, sobretudo, no que diz respeito ao seu desenvolvimento cultural e intelectual.
O bairro é sede de várias lojas maçônicas, subordinadas a duas grandes entidades centrais - ambas com abrangência estadual -, comumente chamadas de Potências. Uma delas, o Grande Oriente Paulista (GOP), cujo expoente é o Grão-Mestre Durval de Oliveira, agrega quatro lojas lapeanas. Na Rua Paulo Franco (Vila Hamburguesa) funciona a Everado Dias, que completou 40 anos de existência, terça-feira, 4 de abril. Na Avenida Mercedes está localizada a Trolha da Lapa, não muito distante da Vigilantes, que fica na Rua Moxei. Por fim, a mais nova das lojas maçônicas da Lapa é Estrela do Jaguaré, com sede na Rua Camacã (Vila Anastácio).
Uma outra Potência estadual com ramificações lapeanas é a Grandes Lojas, à qual estão associadas a Estrela da Lapa (Rua João Pereira); Ernesto Zuanella (Rua Gomes Freire); Edgard Armond (Rua Gomes Freire) e Orion (Rua Paulo Franco).
Estima-se que na Lapa, a comunidade maçônica seja formada por cerca de 500 membros.
Na Maçonaria não há a defesa desta o daquela ideologia política e também respeita-se pluralidade de credos religiosos. Porém para ingressar na Maçonaria é preciso professar a Fé em Deus.
A crença em um Ser Supremo é um dos pilares da Maçonaria, que expressa esse pensamento no uso constante de dois símbolos: a régua e o compasso. "É uma referência a Deus, o engenheiro e arquiteto do Universo”, explica Ricardo Guisado, da Loja Trolha da Lapa. “Essas imagens também fazem referência ao equilíbrio entre espírito e matéria”.
O ingresso na Maçonaria ainda é bastante restrito, a começar pela necessidade de o postulante ter de ser indicado por alguém pertencente à entidade. Via de regra , mulheres não são admitidas, embora existam algumas lojas mistas e outras exclusivamente femininas. São 33 os graus hierárquicos que balizam a estrutura administrativa da Maçonaria. O estágio inicial é de aprendiz, que para chegar ao último grau têm de se cumprir uma série de requisitos e se submeter sucessivos exames teóricos.
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domingo, 9 de janeiro de 2011
Memórias; Recordar é viver na Lapa
No site São Paulo Minha Cidade (Prefeitura de São Paulo) encontramos o seguinte depoimento sobre a Lapa de outrora. São lembranças de Vera Morata
"Para mim, a Lapa sempre foi um bairro belíssimo, cheio de charme, com muitas ruas de paralelepípedos. Existe paisagem mais romântica do que rua de paralelepípedo, sobretudo quando é à noite e com aquela umidade no chão depois de uma boa garõa?
Nos anos 1980, eu e meu então namorado, atual marido, com freqüência pegávamos o ônibus a partir da Estação Vila Mariana do metrô e íamos até o bairro que, para mim, tem cheiro de família reunida. Passeávamos pelas ruas... Apenas olhando os detalhes, as ruas menos movimentadas. É incrível o quanto se vê quando as pessoas não estão à nossa frente, correndo nervosas, reféns do relógio. Perto do ponto final, o ônibus já quase vazio, olhávamos mais, buscando novos e preciosos detalhes. Os nomes das ruas são interessantíssimos: tem a Rua Roma, a Tibério, a Faustolo, a Trajano, a Coriolano, a Caio Graco... Enfim, estão concentrados ali imperadores e reformistas, como o próprio Caio Graco, que na Roma republicana, lutou pela realização da reforma agrária... Mas não conseguiu convencer os senadores e latifundiários a dividir a terra em benefício das massas.
Na infância freqüentei muito a Rua Caio Graco. Ali, numa vila, morava o meu tio Pedro, irmão da minha avó. Visitávamos a casa preferencialmente aos domingos e sempre com muita conversa animada, harmonia e novidades. Meu pai, o tio Pedro e alguns filhos e genros jogavam cartas animadamente. Eu achava aquela casa o máximo! Tinha vida, alegria e uma longa história de luta. O tio Pedro era filho de imigrantes italianos e havia sofrido muito em São Paulo. A família era numerosa e muitos filhos do tio Pedro eram metalúrgicos. Na cozinha, um pingüim sobre a geladeira Frigidaire era o maior charme.
Até hoje adoro esses pingüins... Separando a cozinha da área de serviço, uma cortina de plástico com tiras coloridas. E tomávamos café com um pão quentinho... Ah! Não tem pão mais gostoso que o feito nas padarias da Lapa...
Mas uma vez, na casa dele, a tristeza se apresentou para nós com lágrimas amargas nos olhos de uma das primas, que lutava para sorrir e receber as visitas. O irmão dela se tornara preso político. Era o ano de 1969... E só quem viveu o período sabe o que é terrorismo de Estado...
Esse primo estava sendo torturado e eu, na época com meus onze anos, não me esqueci mais daquele dia, daquela cena, dos olhos vermelhos e da tentativa de dizer que tudo estava bem. Fiquei perturbada demais com tudo aquilo.
Durante um tempo, fiquei fora da casa, sentada sozinha na calçada daquela vila, com um livro na mão, pois no dia seguinte eu ia ter prova e queria estudar um pouco mais. Não consegui estudar e fiquei pensando no fato. E sei que, a partir daquele momento, a palavra injustiça, para mim, passou a ser a mais perversa, a mais hedionda possível, a mais abominável: a negação das liberdades individuais, a negação do ser em nome do Estado. Muito das minhas decisões políticas e da minha visão de mundo tiveram origem ali, na casa do tio Pedro, na Rua Caio Graco.
E nos anos 1980, meu atual marido e eu caminhávamos por ali... Procurando história pelas placas de ruas, nas construções. Conhecemos uma pizzaria muito especial na Rua Trajano. Eu nunca estive numa pizzaria tão simples. Com dois andares, fomos logo nos acomodar no andar de cima e nunca comemos uma pizza de frango tão gostosa. E com guaraná Brahma bem gelado! A outra metade era de calabresa, mas... Que tristeza... Tinha muita cebola...
Hoje, passeando por ali, como fizemos nas férias de 2006, paramos numa das padarias em pleno primeiro de janeiro... E comprei pão, inclusive pão de mel... E comemos no carro mesmo. Eu não tive paciência de esperar chegar em casa para comer o pão com cabe caboclo. Aliás, o gosto da comida é fundamental para sentirmos o sabor das almas, o aroma, o gosto pelo lugar. Não é por acaso que o brilhante escritor, o dominicano Frei Betto, aliás, um outro preso político da ditadura, diz que não é por acaso que, dentro da boca, existe um pedaço chamado céu.
Céu da boca... Céu da Lapa... Céu de São Paulo... Tudo se junta, nem sempre harmoniosamente, e me mantém viva, atuante, militante pela dignidade, pois foi aí que também aprendi que corpo e alma se mesclam para a construção da beleza... Infinitamente".
"Para mim, a Lapa sempre foi um bairro belíssimo, cheio de charme, com muitas ruas de paralelepípedos. Existe paisagem mais romântica do que rua de paralelepípedo, sobretudo quando é à noite e com aquela umidade no chão depois de uma boa garõa?
Nos anos 1980, eu e meu então namorado, atual marido, com freqüência pegávamos o ônibus a partir da Estação Vila Mariana do metrô e íamos até o bairro que, para mim, tem cheiro de família reunida. Passeávamos pelas ruas... Apenas olhando os detalhes, as ruas menos movimentadas. É incrível o quanto se vê quando as pessoas não estão à nossa frente, correndo nervosas, reféns do relógio. Perto do ponto final, o ônibus já quase vazio, olhávamos mais, buscando novos e preciosos detalhes. Os nomes das ruas são interessantíssimos: tem a Rua Roma, a Tibério, a Faustolo, a Trajano, a Coriolano, a Caio Graco... Enfim, estão concentrados ali imperadores e reformistas, como o próprio Caio Graco, que na Roma republicana, lutou pela realização da reforma agrária... Mas não conseguiu convencer os senadores e latifundiários a dividir a terra em benefício das massas.
Na infância freqüentei muito a Rua Caio Graco. Ali, numa vila, morava o meu tio Pedro, irmão da minha avó. Visitávamos a casa preferencialmente aos domingos e sempre com muita conversa animada, harmonia e novidades. Meu pai, o tio Pedro e alguns filhos e genros jogavam cartas animadamente. Eu achava aquela casa o máximo! Tinha vida, alegria e uma longa história de luta. O tio Pedro era filho de imigrantes italianos e havia sofrido muito em São Paulo. A família era numerosa e muitos filhos do tio Pedro eram metalúrgicos. Na cozinha, um pingüim sobre a geladeira Frigidaire era o maior charme.
Até hoje adoro esses pingüins... Separando a cozinha da área de serviço, uma cortina de plástico com tiras coloridas. E tomávamos café com um pão quentinho... Ah! Não tem pão mais gostoso que o feito nas padarias da Lapa...
Mas uma vez, na casa dele, a tristeza se apresentou para nós com lágrimas amargas nos olhos de uma das primas, que lutava para sorrir e receber as visitas. O irmão dela se tornara preso político. Era o ano de 1969... E só quem viveu o período sabe o que é terrorismo de Estado...
Esse primo estava sendo torturado e eu, na época com meus onze anos, não me esqueci mais daquele dia, daquela cena, dos olhos vermelhos e da tentativa de dizer que tudo estava bem. Fiquei perturbada demais com tudo aquilo.
Durante um tempo, fiquei fora da casa, sentada sozinha na calçada daquela vila, com um livro na mão, pois no dia seguinte eu ia ter prova e queria estudar um pouco mais. Não consegui estudar e fiquei pensando no fato. E sei que, a partir daquele momento, a palavra injustiça, para mim, passou a ser a mais perversa, a mais hedionda possível, a mais abominável: a negação das liberdades individuais, a negação do ser em nome do Estado. Muito das minhas decisões políticas e da minha visão de mundo tiveram origem ali, na casa do tio Pedro, na Rua Caio Graco.
E nos anos 1980, meu atual marido e eu caminhávamos por ali... Procurando história pelas placas de ruas, nas construções. Conhecemos uma pizzaria muito especial na Rua Trajano. Eu nunca estive numa pizzaria tão simples. Com dois andares, fomos logo nos acomodar no andar de cima e nunca comemos uma pizza de frango tão gostosa. E com guaraná Brahma bem gelado! A outra metade era de calabresa, mas... Que tristeza... Tinha muita cebola...
Hoje, passeando por ali, como fizemos nas férias de 2006, paramos numa das padarias em pleno primeiro de janeiro... E comprei pão, inclusive pão de mel... E comemos no carro mesmo. Eu não tive paciência de esperar chegar em casa para comer o pão com cabe caboclo. Aliás, o gosto da comida é fundamental para sentirmos o sabor das almas, o aroma, o gosto pelo lugar. Não é por acaso que o brilhante escritor, o dominicano Frei Betto, aliás, um outro preso político da ditadura, diz que não é por acaso que, dentro da boca, existe um pedaço chamado céu.
Céu da boca... Céu da Lapa... Céu de São Paulo... Tudo se junta, nem sempre harmoniosamente, e me mantém viva, atuante, militante pela dignidade, pois foi aí que também aprendi que corpo e alma se mesclam para a construção da beleza... Infinitamente".
sábado, 8 de janeiro de 2011
Educação: Ensino profissionalizante nos trilhos
Toda a dinâmica da indústria ferroviária na Lapa ao longo das quatro primeiras décadas do século XX fez nascer, naturalmente, demandas na área do aprendizado industrial. Por conta disso é que o sistema corporativo da indústria paulista, via Serviço Nacional da Indústria do Estado de São Paulo (Senai-SP) pode hoje contar a história do Centro de Formação Profissional “Engº James C. Stewart” – CPTM, estabelecimento de ensino profissionalizante, que forma profissionais de nível médio para a indústria ferroviária.
HISTÓRICO DA ESCOLA
A Formação Profissional Ferroviária teve seu início em 1943, nas oficinas da SPR (São Paulo Railway), com número reduzido de alunos. Em 25/01/1951, com instalações apropriadas, foi transformada na Escola Profissional Ferroviária de Paranapiacaba. Em fevereiro de 1954, mais uma escola iniciou suas atividades, recebendo o nome de Escola Profissional Ferroviária da Lapa. Com a criação da Rede Ferroviária Federal (RFFSA), e, em 1961, com o evento do Acordo Rede/SENAI, o nome dessas escolas passou para Escola SENAIFerroviária de Paranapiacaba e Escola SENAIFerroviária da Lapa.
Com o objetivo de unificar as duas escolas num único Centro de Aprendizagem, em 1972, foi fundado o Centro de Formação Profissional de São Paulo, que mais tarde, em 1975, com novas instalações, recebeu o nome de Centro de Formação Profissional “Engº James C. Stewart”.
Seu nome foi escolhido carinhosamente nos assentamentos da Rede Ferroviária Federal. JAMES CLEGHORN STEWART nasceu em Edimburgo, Escócia, em 23/11/1890. Estudou engenharia em Londres, encerrando seus estudos em 1910.
Contratado em Londres para trabalhar na antiga São Paulo Railway – SPR, veio para o Brasil em 1913, destacando-se, profissionalmente, por sua capacidade e dedicação. Atingiu postos de destaque na Empresa e faleceu em 04/08/1973 ainda em atividade.
O Centro, hoje
Centro de Formação Profissional é mantido, desde 1994, pela Companhia Paulista de Trens Metropolitanos – CPTM – por meio CONVÊNIO DE COOPERAÇÃO TÉCNICA, firmado com o Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial – SENAI. A escola está situada na Avenida Raimundo Pereira de Magalhães, 1000, Vila Anastácio, São Paulo.
O Curso de Aprendizagem Industrial desenvolvido ao longo dos anos, no Centro de Formação Profissional, demonstrou eficácia e eficiência na formação de profissionais que atuaram e atuam, na ferrovia.
Todavia, novas tendências, transformações políticas e econômicas impulsionaram mudanças e a Aprendizagem Industrial passou a ser foco de atenção e preocupação de nossa parte.
Em 1994, quando a CPTM assumiu os Sistemas de Trens da Região Metropolitana, tendo como objetivos: recuperar, concluir, otimizar e expandir o sistema de transporte de passageiros sobre trilho, promovendo a remodelação e a modernização do sistema, tornou-se imperiosa a reformulação do sistema de Formação Profissional desta Escola.
Seria então necessário contribuir para a concretização dos objetivos da empresa, preparando profissionais com formação específica em transporte sobre trilhos, pois o mercado não oferece essa mão-de-obra com características tão próprias.
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